Olá, pessoal!
Hoje estou aparecendo por aqui para postar mais um conto com personagens do mundo de Kathros que não estão relacionados aos Amberblades. É meio que uma continuação do conto Derrote-me se Puder (parte 1) (parte 2)... Bom, na verdade é mesmo a continuação, mas como o próprio título do conto diz, pode ser algo que pare por aí mesmo. A história da Condessa de Lokihart talvez só tenha continuação se realmente pedras começarem a voar... hehehe.
Pode parecer algo meio sem sentido, mas eu costumo escrever coisas assim quando fico presa à reflexões sobre as coisas da vida. ^_^
Bom, vamos ao que interessa, não? A propósito... Ficarei devendo ilustração deste conto por enquanto.
Ela queria que pedras voassem
Eis que estou aqui novamente, relatando as coisas
que vejo em minhas viagens. Apesar de que deixei a vida nômade de lado por
alguns tempos. O condado de Lokihart me chamou muito a atenção e decidi passar
uns tempos por aqui.
Lembro que minha história anterior terminou com o
sorriso da Condessa depois de ler seus lábios enquanto perguntava a Pan: Você
volta?
Uns seis meses se passaram depois daquilo e a
Condessa foi a personalidade mais interessante de se observar. Com o Visconde
de Lokihart escolhido em meio ao povo residente do condado, ela estaria livre
para viajar quando desejasse e, assim, viver uma vida diferente da do pai. No
entanto, todas as viagens que acabou fazendo não passaram de visitas a vilas
menores do território cuidado por ela. A Condessa não demorava mais que uma
semana para voltar ao seu casarão.
Reparei que, nas primeiras viagens feitas por ela,
a armadura e espada sempre a acompanhavam. As pessoas que entenderam o lado
dela, exposto no dia em que o conflito acabou, diziam que aquela era a vida que
ela queria viver. Ela queria deixar um pouco as responsabilidades como condessa
e viver a vida pela espada.
Viajar... Proteger com sua espada aqueles que
precisam...
Lá pelo quinto mês, num dia que parecia não ter
ligação com nada, vi a Condessa caminhando pelos arredores de seu casarão vestida
como uma dama, longe daquela imagem de guerreira de armadura e espada. Eu a
segui discretamente e, ao observar, ela parecia contente, caminhando com as
mãos unidas frente ao corpo e cumprimentando as pessoas que passavam por ela.
Assim foi até ela se aproximar da estalagem que
inicialmente abrigou seu mestre Blaidd. Ela parou e ficou ali, do outro lado da
rua, olhando para aquele edifício com um semblante de nostalgia que até me
comoveu. Do que será que ela sentia saudades? Confesso que aquela visão me
inspirou a compor uma nova música para minhas apresentações na vila; é assim
que ganho meu sustento por ali.
Ela ficou ali durante uns 15 minutos...
Observando... Relembrando... Sentindo saudades...
A aflição pareceu dividir espaço com a nostalgia.
Teve alguns momentos que ela levou uma das mãos à cabeça, mexendo nos cabelos
de forma ansiosa.
Ao fim dos 15 minutos foi que ela pareceu sentir o
coração sair pela boca. Sabe quando você está pensando numa coisa e, de
repente, algo relacionado ao que você está pensando aparece? Acho que foi isso
que aconteceu com ela. A Condessa demonstrou um nervosismo enorme quando um
guerreiro que carregava uma espada longa nas costas saiu da estalagem... E sabem o
que isso a levou a fazer?
Minha história anterior se baseou em relatos da
população, pois minha chegada foi após o conflito no condado. Contudo, naquele
momento ela correu e eu estava lá. Não perdi tempo e fui atrás dela. Minha
história poderia ter uma continuação e era disso que eu precisava correr
atrás.
- Condessa Lokihart, eu a vi nervosa e, como o povo
a quer muito bem, decidi vir atrás da senhora – eu disse a ela quando consegui
alcançá-la nos arredores de seu casarão.
Ela me encarou e de imediato me identificou como um
bardo, o que pensei que me atrapalharia na minha busca por mais uma história
para contar. Mas para minha surpresa, ela virou-se para mim, um total estranho,
e começou a falar.
“Por que soltar uma pedra é tão difícil assim?”
E ela pegou uma pedrinha no chão...
“Por que uma pedra como todas as outras consegue se
tornar tão especial a ponto de valer mais que uma pedra preciosa? Eu ajudo
tantas pessoas a buscarem aquilo que as complete, mas e o que me completa?
Seria a pedra que eu deixei no fundo do poço e agora anseio por ter de volta?”
E ela riu... Um riso triste, se é que isso é
possível.
“Voltar... Ele não vai voltar. Uma pedra solta não
faz o caminho de volta, não é mesmo?”
E ela soltou a pedrinha que estava em sua mão,
acompanhando a queda desta até o solo e deixando que uma lágrima a seguisse em
seu percurso. A mão dela ainda se mantinha na posição que deixou a pedra cair
como se esperasse por um milagre que fizesse a pedra voltar para ela.
“Será que se eu pedir aos deuses, a pedra volta?”
O que eu poderia responder a ela? Que os deuses
fariam a pedra voar de volta para a mão dela? Eu estaria mentindo para ela? Ou
ela está errada em querer que uma pedra voe? Para uma pessoa que havia deixado
de sonhar justamente para viver a vida de outra pessoa, sonhar com o voo de uma
pedra seria absurdo demais?
Acabei me perdendo em meus devaneios e, quando dei
por mim, a Condessa havia desaparecido. Cheguei a encontrá-la outras vezes
pelas ruas da vila e ela sempre sorria para mim antes de continuar o que estava
fazendo.
Ela sorria... Sorria... Ela ficava entre todos na
vila, mas ao mesmo tempo parecia não estar. E não estava mesmo. Sua mente
vagava pela imensidão do mundo de Kathros, pensando na pedra...
Não é mesmo?